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Ganho real: o que sobra depois da inflação

Render dez por cento num ano em que os preços subiram nove não é ganhar dez — é ganhar quase nada.

Texto revisado em . Os valores legais abaixo vêm dos parâmetros cadastrados e acompanham a norma que os fixa.

Dois números, e só um deles importa

Todo rendimento tem duas leituras. A nominal é a que aparece no extrato: quanto o saldo cresceu. A real é a que responde à pergunta que interessa: quanto a mais você consegue comprar depois de ter aplicado.

Se os preços subiram no mesmo ritmo do rendimento, o saldo aumentou e o poder de compra ficou igual. O ganho existiu no papel e não existiu na prática.

O ganho real pode ser negativo mesmo com o saldo crescendo. É o caso mais comum de aplicação conservadora em período de inflação alta.

E há uma sutileza no cálculo: descontar a inflação não é subtrair um percentual do outro. Os dois se compõem, e a subtração simples superestima o ganho — pouco em períodos curtos, bastante em prazos longos.

Qual índice usar, e por que eles divergem

Não existe "a inflação": existem índices que medem cestas diferentes, para públicos diferentes, em regiões diferentes. Num mesmo ano eles podem apontar valores bem distintos, e isso não é erro de nenhum deles.

  • Índices de preço ao consumidor medem o custo de vida das famílias, com faixas de renda distintas conforme o índice.
  • Índices gerais de preços incorporam também o atacado e a construção, e por isso oscilam mais.
  • Contratos costumam fixar qual índice se aplica — e é esse que vale para aquela correção, não o que subiu menos.

Para medir poder de compra pessoal, um índice ao consumidor costuma ser o mais próximo da experiência de quem pergunta. Para corrigir um valor contratual, o índice certo é o que o contrato escolheu.

O salário que não mudou, mas encolheu

A mesma conta explica uma sensação comum: o salário é o mesmo há dois anos e não compra mais o que comprava. Não é impressão — é aritmética.

Um reajuste igual à inflação do período não é aumento: é reposição. Ele devolve o poder de compra que existia antes, e nada além disso. Aumento de verdade é o que passa disso.

Aplicações que já entregam o ganho real

Existem títulos cuja remuneração é definida como um índice de inflação mais uma taxa. Eles resolvem o problema pela raiz: qualquer que seja a inflação do período, o ganho acima dela está contratado.

Duas ressalvas honestas sobre eles. A primeira é o imposto: ele incide sobre o rendimento nominal, inclusive sobre a parte que foi apenas correção — então o ganho real depois do imposto é menor que a taxa contratada.

A segunda é a marcação a mercado: vender antes do vencimento pode render mais ou menos que o contratado, porque o preço do título oscila com as expectativas de juros. A taxa contratada é uma promessa para quem leva até o fim.

Este guia é informativo e educacional. Descreve como o cálculo é feito com base nas normas citadas e não constitui aconselhamento jurídico, contábil ou financeiro. Situações específicas de contrato, convenção coletiva ou acordo individual podem alterar o resultado.

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